quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Teia

Começamos com um jogo de silêncio, onde todos fecham os olhos e percebem sua própria  respiração, seu próprio corpo.  Após estes instantes de ilha, de neutralidade, a Aranha Lenine, nos separa em duplas no Horto dos Contos. Faço dupla com uma amiga que gosto muito, Mirella Ferraz.
O jogo se segue. Confiança e entrega, revezamento de condutor/receptor, receptor/condutor. O condutor de olhos abertos leva o receptor com pequenos toques em seu corpo ( pontas dos dedos, cotovelos, nariz) o receptor se deixa levar por esse balet proposto por um outro corpo. Entrega, tranquilidade e confiança são necessárias por parte de quem recebe, cuidado, carinho e segurança por parte de quem doa.
Dilatação da consciência corporal e sensorial.
A aranha tece mais sua Teia, cada um das duplas coloca dois elásticos. Um na perna direita e braço esquerdo e no parceiro o contrário, braço direito e perna esquerda, criando um jogo de oposição e desequilíbrio para um corpo presente, um corpo dilatado ( BARBA, Eugênio) .
A dança agora cresce, e é feita de olhos abertos, nossas respirações se dilatam percebendo cada vez mais a respiração do outro corpo. O outro só pode crescer e se libertar no espaço com a ajuda de seu parceiro, e vice versa. Uma linda dança de ventrilocos marionetes se dá sobre as árvores do horto.
Quando todos corpos já ESTÃO presentes, a Aranha os envolve num grande corpo coletivo. Como em uma mandala osmótica, que se transforma sempre pelo movimento do outro e do meio, cada corpo é amarrado por dois elásticos formando um grande corpo coletivo. Tomamos as ruas de Ouro Preto, saindo do Horto de Pilar, subimos a Ladeira da escadinha que desemboca no Lardo da Alegria.
Os corpos são hora leves, hora pesados, o pensamento se vai, se esvazia, dá lugar ao suor e aos sons guturais que a força do inconsciente permite. Assovios, gritos de força, silêncios, pausas... sempre dois ou três são mais fortes, como numa corrente elétrica que passa por vários vórtices.
Alcançamos o topo da escadaria, no Largo da Alegria. Duas pessoas se separam. Pequena pausa...novo destino é traçado, Cine Vila Rica, seguindo pela rua São José.
Agora em linda reta, não tendo o esforço da subida e com todos os membros acordados, a mandala ganha a leveza do descanso, brincadeiras surgem, passando seus fios por cima dos carros, brincando de laçar os turistas e curiosos que acabam brincando com a grande teia que lhes quer abraçar.
Somos muitos em um só, doando e recebendo. Tendo calma e generosidade, para poder  caminhar juntos. Só assim é possível caminhar juntos, com calma, generosidade e respeito com o corpo, o tempo e o espaço do outro, MAS  TAMBÉM sendo combustível, cúmplice e suporte da caminhada do parceiro. Só assim a teia cresce e alcança novas ruas, novos espaços, novos ritmos e respirações. Só com o respeito e com a aposta conjunta. Um dá coragem ao outro, um liberta o outro e a si mesmo.
O coletivo escutando o indivíduo, o indivíduo fortalecendo o coletivo.
Que cada vez mais teias sejam tecidas por todos espaços e tempos.
Gratidão  minha amiga e Aranha Lenine

Henrique Manoel Manara

Performance Teia, proposta por Lenine Guevara

Trabalho e educação


Vídeo de Douglas Aparecido
Fotógrafo e Videomaker · Ouro Prêto

OLHARES 1